Cultura popular e as influências estéticas na música paraense.

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Com contribuições de: Vlad Cunha, Rafael Guedes e Gustavo Godinho.

JORGE
Vocês que são conhecedores do fenômeno da música popular paraense, o tecnobrega, também conhecem a origem e influências estética desse movimento? Uma designer Fernanda Martin, que me dá aula na pós, defendeu o mestrado dela sobre as letras do barcos da região norte, aqueles tipo decorativos e bolds com o nome que identificam o barco. Indentificou, entre outras coisas, a influência do período vitoriano (revolução industrial na inglaterra) que coincide com a expansão dos portos devido a bonança da borracha no Pará. Não seria de se estranhar que as decorações e tipos do brega e, posteriormente, do tecnobrega também tenham bebido na mesma fonte. Onde o tecnobrega encontra a cultura ribeirinha? Alguma contribuição?

VLAD
Hoje em dia eu acho que o design tecnobrega guarda quase ou nenhuma aproximação com a cultura ribeirinha, vitoriana ou caribenha. Houve ai uma mudança na origem dos inputs de informação, que hoje em dia são midiaticos e digitais. Se tu fores ver, até mesmo a nomenclatura das aparelhagens remete a simbolos da cultura pop e da industria do entretenimento: águia de fogo, por exemplo, era uma serie de tv dos anos 80. E temos ainda aparelhagens chamadas Vetron e Matrix.

Para mim isso se deve muito a internet, ao celular e a pirataria, que disseminaram na periferia de Belém essa nova cultura digital periferica e planetaria fazendo com que o imaginario dessas pessoas passasse a gravitar em torno de desenhos japoneses, series de tv, clips de rap, eurodance e reggaeton, filmes de ação (Vin Diesel, Velozes e Furiosos, Mandando Bala), tunning, moda de rua e etc. É visivel a mudanca de paradigmas e é possivel ate mesmo identifica-la visualmente nos movimentos ligados as aparelhagens e no design das próprias.

JORGE
Isso tudo é verdade. Mas não dá para isolar a influência sofrida pelo tecnobrega a um único período histórico, que é justamente essa expansão digital que citaste. E antes do tecnobrega ser o tecnobrega que conhecemos hoje? E todo aquele gosto por expressão ornamentada, colorida, carregadas e bolds que vemos nos logotipos das aparelhagem mais famosas? E quanto as dezenas de aparelhas itinerantes chegando de barco para tocar de festa em festa. Acho que é tudo uma mistura. Na pior das hipóteses, acho que podemos traçar um paralelo das condições socio-culturais que proporcionam a esse povo paraense ser tão fortemente influenciado por períodos históricos. Afinal, o mesmo “navegante ribeirinho” é hoje o “dj das aparelhas”, não? O motorista do meu avô é um exemplo típico. Marajoara, veio trabalhar na cidade grande como ajudande desde que meu avô teve AVC, hoje além de motorista tem uma aparelhagem e viaja todo fim de semana para vários lugares do Marajó para discotecar e festas.

GUSTAVO
Concordo com o Vlad e complementaria: o resultado do que tu vê é reflexo do caos de referências simbólicas muito próprias da geração que viveu estágios mais avançados de desenvolvimento da cultura de massa. o que acho uma característica do que acontece aqui em belém, e talvez própria de lugares onde ainda há uma assimilação superficial e pouco desenvolvida dessas referências, é a estética sendo criada a partir do maravilhamento dessas pessoas com as possibilidades oferecidas pela tecnologia que utilizam. como não há muito conteúdo, a forma vira o conteúdo numa época em que qualquer um pode ter acesso aos “meios de produção da arte”, digamos assim.

Enquanto os Beastie Boys se apropriam de elemenos da cultura pop pra falar sobre cultura pop, em belém essa apropriação tem, na minha opinião, claramente a intenção única de reproduzir a massa desordenada de referências que eles julgam ter alta qualidade, sem sequer refletir sobre elas. enquanto toda a nova eletrônica ‘esperta’ usa cinicamente a tipografia dos anos 80, as aparelhagens realmente acreditam no poder de convencimento da tipografia que exalta a alta tecnologia, com fontes do filme matrix e do gênero.

Eu responderia tua pergunta com um chute: eu acho que não existe mais relação entre o universo visual da antiga e da nova aparelhagem. Ela é ávida por novidades, vive na velocidade dos lançamentos de novos modelos de aparelhos de telefone celular, pra fazer uma analogia. Não existe o tradicional, existe o velho, e ele tem um caráter negativo. Só o novo é bom. depois que o corel e o photoshop chegaram e eles aprenderam a mexer, duvido que tenha percorrido a cabeça deles nessa hora a imagem de barquinhos no ver-o-peso. como o vlad disse, era velozes e furiosos e muito tutorial de aplicação de flare, textura cromada sobre as fontes e os caralho.

VLAD
O Gustavo tocou em um ponto importante: caos e saturação sensorial. Desde o começo dos anos 90, o Douglas Rushkoff, em seu livro Surviving the Future (Um Jogo Chamado Futuro, no Brasil) vem defendendo a fragmentação de percepção como chave para entender os tempos atuais. A teoria dele é que a percepção de realidade do ser humano veio se fragmentando ao longo dos anos numa proporção direta ao estabelecimento das redes de comunicação e ao avanço tecnológico.

É o que possibilitou, segundo ele, o surgimento do screenagers, o teenager da era do video, o contraponto cyberpunk e digital aos filhos do baby-boom pós segunda guerra. É o garoto saturado de informações visuais e textuais fragmentadas, capaz de processa-las todas aos mesmo tempo, ao contrário de seus pais e avós, que só conseguiam lidar com um input de informação por vez.

No começo dos anos 90 isso parecia revolucionário, mas a meu ver criou um problema sério a partir do começo dos anos 2000, que e a substituição do texto pela imagem, o que causou uma perda muito grande na capacidade de reflexão das novas gerações. Por outro lado, ao mesmo tempo em que tu tens uma geração incapaz da reflexão intelectual, que apenas simula inputs de informações e padrões cognitivos, tu vê surgir uma classe que, ainda de maneira ingênua e sem cinismo ou reflexão (como observou o Gustavo) é capaz de pegar esses mesmos padrões e criar paradigmas novos, como o caso dos tecnobregas.

JORGE
Voto vencido. Duas últimas palavras. Óbvio que as referências não nascem de uma forma tão consciente do tipo: vamos pintar igual aos barquinhos (isso é ingenuidade). A perpetuação dessas coisas acontece em nível mais subjetivo. Eles não são estudandes de publicidade, antenados, reproduzindo propositalmente o design futurista holandes (como vê a todo instante na internet)

Mas como alguem disse anteriormente: é uma “nova aparelhagem”, que nada tem a ver com a velha aparelhagem (?!). Isso pode acontecer realmente, mas soa tão estranho quanto dizer que a internet não tem nada de jornal impresso, de rádio nem da televisão. Enfim, a curiosidade me surgiu por um motivo muito simples. Dez a quinze anos atrás, quando o computador era uma ferramenta restrita, antes portanto do dólar barato e dos incentivos fiscais, a reprodução do material gráfico dessas aparelhagem (faixas de rua, pinturas etc) eram feitas a mão, certamente pelos mesmos profissionais “abrem letras” que faziam os desenhos nos barcos e faixada de comércio popular (havia esquecido de mencionar o comércio popular, falar do barco é apenas deixar mais romântico, mas a pintura não está só nele).

Portanto, se dá pra encarar a existência de “uma nova aparelhagem que não tem mais nada da antiga”, tudo bem. Pelo contrário, acredito em referência evidêntes destes dois mundo. O que dizer da foto em anexo? Quanto a tipografia dos anos 80, as mais consagradas e ainda usadas famílias tipograficas até os dias de hoje tem, facilmente, mais de 50 anos (Helvetica, por exemplo, a mais popular do mundo). De moro geral, elas não nasceram junto com a popularização do computador, pelo contrário, foram digitalizadas para serem usadas nos computadores.

GUSTAVO
Eu ia escrever algo logo depois que postei meu último email falando disso, mas fiquei com preguiça. Era sobre talvez ter soado meio radical uma negação total do que veio antes, o que é obviamente impossível ou pelo menos desnecessário. Só agora que eu comecei a achar essa foto legal, depois que vi essa que tu mandou: http://farm4.static.flickr.com/3190/3297528712_171b5e8ffd_o.jpg
Aliás, eu tinha certa vez conversado com alguém sobre uma forma de criar um projeto gráfico pro documentário do brega que não parecesse aparelhagem velha, arte naif, brasil profundo e folclórico, cordel, porque o que se vê hoje pelas ruas é exatamente a negação disso. O Brunno deu uma idéia bem legal, que tivesse na capa uma simulação de reflexo produzido por aquele plástico que envolve os dvds piratas, inclusive com a fitinha adesiva em cima.

VLAD
Antes de voltar pra Sao Paulo fui jantar com o meu pai. Conversando exatamente sobre isso, ele me falou algo que é preciso levar em conta para entender Belém e esse universo periférico dela.

A Marinha Mercante brasileira teve apenas três escolas de formação de cadetes: Uma no Rio, uma no nordeste e outra em Belém. O resultado prático disso e que os filhos das classes C e D da periferia de Belém se engajaram desde cedo no Ciaba, para em seguida se formar e viajar pelo mundo. Meu pai estava me contando de como, nos anos 60 e 70, as famílias de bairros como Jurunas, Guama e Pedreira possuiam bens de consumo muito mais sofisticados do que os da classe media. Isso porque era comum os filhos, na volta de suas viagens, trazerem rádios, TVs e aparelhos de som de presente para a família.

Para ele isso faz parte da gênese da ligação do paraense pobre com tecnologia e explica essa relação entre vitorianismo, tecnologia e cultura pop nas aparelhagens a partir dos anos 70. Ao mesmo tempo, no começo dos anos 80, uma leva de paraenses foi trabalhar no Oriente Medio, construindo estradas no Iraque atraves da Camargo Correa, o que gerou uma segunda leva de tecnologia quando esse povo voltou.

E ainda teriamos o contrabando via Caribe e Guianas, de discos, roupas e cigarros, todo ele consumado a partir da zona portuaria de Belém. Isso so fortalece a tese de que a periferia sempre esteve na vanguarda em Belem, mais até do que a classe média ou as classes mais altas. A questao é que, dos anos dois mil em diante, essa lógica de acesso aos bens de consumo foi desmantelada pela pirataria e internet. Alem, é claro, do acesso ao crédito e bens de consumo a partir do governo FHC (o cara que compra o celular na C&A ou o som em 24 prestações na Yamada, por exemplo).

Mas enquanto nos anos 60, 70 e 80 o input de informação e tecnologia vinha de uma fonte apenas, nos anos 2000 ele se fragmentou, tornando-se caótico e multifacetado, radicalizando ainda mais a experiência sensorial e de consumo das classes mais baixas. E assim como ele mudou a lógica do consumo da música e do cinema, mudou o paradigma conceitual e estético das aparelhagens.
Concordo que dizer que a “nova aparelhagem” não tem nada a ver com a antiga é um erro, ate porque ambas nasceram dessa internacionalização do consumo e da absorção de informação. Mas a intensidade e a metodologia desses processos se modificaram. E é ai que reside toda a diferenca entre as duas.

RAFAEL GUEDES
Só não acredito na ruptura total entre as duas coisas. Se tomarmos isso aqui como exemplo, fica difícil relacionar. Mas a questão essencial é distinguir o rumo que as grandes aparelhagens estão tomando da condição que boa parte delas ainda apresenta. Um bom exemplo (que eu não tenho pra mostrar) é o da aparelhagem que tocava no vadião quando eu fazia federal, um meio termo entre o tecnológico e o artesanal, como se se pegassem grafismos de caminhão e os iluminassem por dentro. Isso talvez não seja válido para os cds de aparelhagem, onde as referências de tecnologia, sexo, moda urbana e pirotecnia predominam. Mas nos das bandas, o kitsch, o burlesco, o old school da aparelhagem ainda está vivo.

GUSTAVO
Então, o espírito é o mesmo, de reinvenção constante. O apreço com a tradição é nenhum, por outro lado. Por isso que digo que o que tinha antes não parece com o que tem hoje. A única certeza que tu vai ter pra amanhã é que no dia que eles acharem necessário matar tudo o que existe hoje, eles não vão hesitar em fazer em nome da “preservação da memória”. Se bem que tem as aparelhagens de saudade, né?

VLAD
Só que as aparelhagens de saudade trabalham um público de percepção não-fragmentada. A lógica desse publico é a dos baby-boomers, nao a dos screenagers.

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