Design de embalagens – As letras miúdas.

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O brasileiro se barbeia com a espuma argentina.

Há um elemento do design de embalagem que pode parecer menos importante ou que pareça requerer menos trabalho e reflexão, mas que pode esconder certas pegadinhas ou oportunidade de se diferenciar e vender mais: as letras pequenas. São geralmente informações obrigatória ou instruções de uso do produto que ninguem lê ou porque ninguem precisa ser ensinado de como usar um shampoo ou porque você já está careca de saber que deve “para uma melhor lavagem, repetir a operação”, mas ainda assim elas precisam estar lá seja por questões legais ou porque simplemesmente “o chefe quer”. Elas estão normalmente na parte traseira do rótulo, entulhadas num bloco de texto em corpo 5. Mas também podem vir na frente, na forma de pequenas informações como NOVO/NUEVO/NEW. A propósito, é justamente devido aos nem tão novos desafios da globalização que o projeto do textos legais ficou cada vez mais desafiador. Um produto de uma multinacional fabricado hoje no Brasil tem informações escritas no mínimo em duas línguas; português e espanhol. Algumas vezes tem-se as informações em português, espanhol e inglês. O motivo é simples, eles usam o Brasil como base de produção e exportação para toda America Latina. Outros fabricam na Argentina e a subsidiária brasileira importa para vender por aqui. E assim segue, disso todo mundo sabe.

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Politicamente correto. Produto brasileiro trás as instruções primeiramente escrito em português.

Os desafios vão desde a quantidade de texto que aumentou e o espaço disponível é mínimo, até questões ufanistas e nacionalistas. Não sei quanto a vocês, mas me sinto levemente incomodado em comprar um produto argentino, talvez nem soubesse que ele fosse argentino, mas a ordem das informações NUEVO/NOVO/NEW entregam o fato e ao virá-lo para ler o rótulo a constatação: Gillete Industria Argentinas S.A. O mesmo não deve ser diferente aos argentinos comprando produtos brasileiros onde a lingua principal é português e, não raro, o texto em português ganha maior destaque com relação a versão em espanhol. Não trata-se de uma rixa, é uma rejeição natural aos constatar que o alvo principal daquele produto não é você, ele foi feito em uma industria argentina, para argentinos. E você… bem, você é uma fonte extra de receita, mas teremos que escrever o texto em sua língua bem pequeno para caber, tá? Se somos quase 200 milhões de brasileiros, a soma de todos os outros hermanos dos países da América Latina e Central que falam espanhol também é um mercado gigantesco e obviamente está igualmente na mira das multinacionais que fabricam no Brasil. Portanto, como projetar um texto legal “neutro”, como tornar um produto acessível a todos sem criar mais empatia com um do que com o outro, ou mesmo, como fabricar um produto brasileiro sem privilegiar o Brasil com relaçao aos demais mercados?

Identifiquei várias maneiras de expor essas informações:

  • A mais comum – é o texto na ligua nativa onde a indústria está instalada em destaque de tamanho, cor etc, além da ordem de leitura. Ficaria algo como NOVO/NUEVO/NEW.
  • O politicamente correto – textos em sequência, sem destaque para nenhuma das línguas, com a lingua nativa em primeiro lugar.
  • A maior rejeição – o primeiro texto é em lingua estrangeira, tipo NUEVO/NEW/NOVO (no caso de uma indústria brasileira)
  • E o mais original – escreve-se primeiramente a informação numa outra lingua, em seguida a informação na lingua nativa vem em destaque cromático ou tamanho. NUEVO/NOVO/NEW. Essa dubialidade hierarquica parece conseguir agradar a todos.

colgate 2

Original. A informação em espanhol vem primeiro, mas o texto em português ficou com o destaque proporcionado pela cor vermelha. Não tenho foto no momento de um outro exemplo da Colgate em que o texto em inglês vem por último, também em azul.

Por fim, não consegui identificar um padrão de uso mesmo dentro de uma mesma empresa, como a Colgate. Muito provavelmente o tipo de produto e a relevância que ele tenha para determinada região definam a diagramação dessas informações. Numa escova de dentes genérica e simples, a solução acima foi adotada. Espanhol primeiro, português em destaque. Mas num produto de maior valor agregado como uma pasta de dentes infantil do Bob Esponja o texto em português veio primeiro.

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  1. 1 Top 5 posts « Jorge Sá Trackback em 9 julho, 2009 às 10:01 am

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