RAFAEL CAPANEMA
da Folha de S.Paulo
O conceito de design ainda é incompreendido, segundo Luís Cláudio Portugal do Nascimento, professor do curso de design da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo).
“Há uma percepção muito equivocada de que tem a ver com sedução, tornar um produto bonitinho, fazer uma interferência de mercado na epiderme do produto”, afirma.
Para Portugal, o ser humano é que deve ser a prioridade do projeto de um produto de tecnologia. “Se [o projeto] não for centrado no usuário, não é design”.
Especializado no ensino de design de produto, o pesquisador está desenvolvendo atualmente uma enciclopédia que discute a ética do design. Leia abaixo trechos da entrevista que Portugal concedeu à Folha.
FUNÇÃO DO DESIGN
Para o especialista, a função do design é criar produtos em que a interface entre a tecnologia, de um lado, e o usuário, do outro, seja “ótima”.
“Nosso enfoque [na USP] é muito menos de apelo comercial e muito mais de fazer um produto que realmente funcione, que faça com que as pessoas se sintam com poder, e não intimidadas.” O professor critica o que chama de “design de sedução”, em que a estética é hipervalorizada em detrimento do conjunto de fatores que compõem o projeto de um produto.
“Há fatores ambientais, ergonômicos, de produção, de manutenção. O isolamento de um fator causa um desequilíbrio no sistema.”
APPLE
Para Portugal, a Apple perpetrou grandes avanços no segmento de design, “mas há também muito fetiche, muito estilismo e não propriamente design”.
“A Apple criou uma interface, inicialmente copiada da Xerox, com uma usabilidade muito superior à dos outros computadores até então. E deu um salto qualitativo do ponto de vista da interface. Mas incorre também em muito modismo.”
CONSUMIDOR
O usuário não deve ser visto como mero consumidor, afirma o especialista. “Se você imaginar que está projetando para um consumidor, permite criar artimanhas e fogos de artifício para impressionar. Se você olhar o sujeito do seu projeto como um usuário, humaniza o processo e faz um produto para atender, para servir.”
CELULARES RUINS
Para Portugal, a maioria dos telefones celulares atuais é feita para ser descartável, e suas interfaces ainda são ruins.
Os principais problemas, em sua opinião, são a inclusão de funções que nunca serão usadas e as categorias conceituais pouco intuitivas das interfaces gráficas.
“Às vezes, o despertador está dentro de uma categoria que você nem sabe o que que quer dizer”, exemplifica. “É impressionante como a qualidade em geral dos produtos de tecnologia e outros está muito aquém do que poderia ser.”
FUTURO
“Observe se as pessoas estão ligando um computador facilmente, se elas se sentem suavemente poderosas na hora de entender o manual, ou se elas têm que chamar um técnico para fazer as instalações. Olharemos daqui a uns 20 anos para as nossas interfaces e pensaremos, “como era áspero, como era primitivo”.”
CAIXAS E COMPRAS
O especialista vê falhas nos sites de compras –segundo ele, difíceis de operar– e nos caixas eletrônicos. “É preciso criar um caixa em que você não se sinta frustrado porque só é informado no final da operação de que tinha escolhido uma modalidade errada antes.”
SUSTENTABILIDADE
Para Portugal, computadores revestidos em bambu não passam de “um equívoco total”, “uma brincadeira”.
“Isso é para surfar na moda da sustentabilidade. Sustentabilidade é fazer uma bateria que dure mais tempo. É fazer um produto com uma engenharia correta, que você não precise trocar a cada dois anos.”
PAPEL CIVILIZATÓRIO
“Nós temos que usar a tecnologia de maneira sagrada, com uma consciência de seu papel civilizatório. O design tem que fazer a ponte entre a tecnologia em estado bruto e os seres humanos”, afirma.
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